29.2.12

sketchiphonic.blogspot.com


Acabo de descobrir o SketchbookX da Autodesk para o iPhone. É o meu diário gráfico que publico num blogue chamado sketchiphonic.

1.2.11


JÁ QUE A VIDA É CURTA

“já que a vida é curta
e o futuro, diz que está aqui já
(sei lá)
já que o futuro vem
em peças separadas p'ra montar
(ah! ah! ah! ah!)
antes que se esgote
reserve desde já o seu exemplar”

“Sérgio Godinho” CARAMBA


Três ideias sobre o tempo….


Afinal o que é que existe, o passado, o presente ou o futuro?

Só pode ser o passado. Evidentemente.
Actos e produtos ficaram todos lá. Mas será que ainda lá estão?
Certo certo é que tudo o que tocamos agora veio do passado, seja ele próximo ou distante.
O passado é o único tempo sobre o qual se verificam teses ou pairam arrependimentos.
O passado tem uma estabilidade fotográfica, e mesmo quando contamos uma história é como se olhássemos para uma destas modernas molduras digitais que guardam fragmentos aleatoriamente organizados.

Mas haverá apenas um passado, ou será que antes pelo contrário serão em número infinito os tempos simultâneos que interagem entre si?

Neste caso então, pensando bem, o que existe realmente é o presente. É aqui que agarramos o efémero e lhe conferimos vida, cor, temperatura, cheiro, gosto, toque, materialização ou sublimação. É no presente que transformamos os “por fazer” em “em curso” e, simultaneamente, esperamos pelo arrefecimento do “produto acabado”.

Mas será o presente um único tempo, ou cada um respira o seu? À minha volta entram e saem figurantes que quando não fazem parte do meu jogo fazem de outro que jogam sempre, o seu. Pois é, na verdade há infinitos presentes a esvaírem-se autonomamente.

Afinal será que o que existe é o futuro? De lá é que nos hão-de vir as estradas para caminhar e as sombras para descansar. Quando fazemos algo é para que esse algo surja no minuto seguinte, para o ano que vem ou um dia quem sabe… Fazemos tudo para que o futuro aconteça.

Mas será que poderíamos escolher futuros diferentes?

Parece por vezes que olhando o futuro estamos a incendiar o presente e a deixar marcas no imaginário do passado; que olhando o presente estamos apenas a olhar para nós; e que olhando o passado nos esquecemos que existimos.

Não obstante, e porque não será a tomada de consciência de qualquer dos casos que evitará que assim suceda, poderemos felizmente concluir que, passado, presente e futuro, tanto nos faz que existam três, apenas um, nenhum deles ou apenas nós, porque afinal aquilo que nos move não são os tempos classificados e medidos, mas antes esta continuidade que nos permite alternar entre teimosos sobreviventes e deslumbrados crentes.

6.4.10



Porque será que me estou nas tintas para a biodiversidade?

Se cada asa de borboleta é uma composição plástica nova e arrebatadora…
Se cada cria de animal, grande ou pequeno é um ser magnético e hipnótico…
Se cada mancha verde na paisagem é um excesso caleidoscópico de folhagens e troncos, irreverências florais e tentações à gula…

Porque será que me estou nas tintas para a biodiversidade?

Se os corpos se reproduzem mas se não clonam, se fundem e reordenam num equilíbrio sempre novo e resplandecente…
Se as faces se sucedem na rua (ou na vida) imprevisivelmente transbordando de intenções e medos cuja interactividade ultrapassa o limite da cegueira…
Se os sorrisos nos provocam o siso cada um à sua maneira, mostrando ou escondendo dentes, alarves ou mudos, fazendo-nos esquecer por segundos o capacete do nosso egocentrismo…

Porque será que me estou nas tintas para a biodiversidade?

Se o plâncton alimenta as baleias e pardal come do que lhe apetece…
Se uns nadam quilómetros para desovar onde nasceram e outros atravessam a selva para morrer no mesmo lugar dos seus antepassados…
Se eu sou o mais velho de três irmãos e o décimo de vinte um primos…

Porque será que me estou nas tintas para a biodiversidade?

Somos seres de campo não de aviário, nesta ficção científica que é a fatia do tempo que nos foi destinada, e só assim poderemos ser entes saborosos para o deleite dos outros.
Que sentido faz um aviário de baleias, ou um alecrim de estufa?
Que sentido fazem gaiolas ou vasos para prender alfinetes, rosas plastificadas ou tubarões de lábios pintados?
Somos seres de campo e o campo já tem tudo organizado. Nós é que lhe desenhamos linhas e construímos muros, para dizer estes são de aqui e aqueles são dali. Nós é que lhe inventamos regras e proibições para prevenir a corrosão do nosso antecipado epitáfio e preservar a nossa incapacidade de mudança.
Temos todos os motivos para desejar fazer parte desta explosão de vida e no entanto…

Eu estou-me nas tintas para a biodiversidade…
…porque te amo!

Cada ano, cada estação, cada mês,

cada semana, cada dia, cada noite,

cada hora, cada minuto, cada segundo,

cada batida do meu coração,

cada inspiração, cada passo, cada corrida,

cada descanso, cada olhar, cada som,

cada cheiro, cada sabor,

cada raio de luz, cada sombra,

cada pasmo, cada gargalhada, cada saudade,

cada viagem, cada paragem, cada regresso,

cada adormecer, cada insónia, cada despertar,

cada aula, cada intervalo,

cada escolha, cada dúvida, cada copo de cerveja,

cada brinde à saúde,

cada alegria, cada suspiro,

cada vitória, cada derrota,

cada mistério, cada solução,

cada flor, cada insecto, cada campo,

cada objecto, cada desenho, cada poema,

cada lema, cada ousadia,

cada sessão de cinema,

cada concerto, cada café,

cada segundo, cada minuto, cada hora,

cada noite, cada dia, cada semana,

cada mês, cada estação, cada ano,

cada reencarnação…

9.12.09



ESPÍRITOS

Os nossos parentes amigos e amigos não parentes são na verdade todos os espíritos que estão connosco. Que importa se estão vivos ou presentes? O que importa é que são amigos e só os amigos fazem parte do corpo espiritual que multiplica por mil a força de cada eu.
Eu tenho a certeza de que todos os que estão comigo me querem bem, porque também sei que os que me querem mal estão apenas consigo próprios ou congregados em forças que andam por outras voltas.
Cortar os laços com os nossos amigos, seja por ausência, divergência, distância ou diferente essência, é uma acção inútil que nos confirma astros de um universo deprimentemente em expansão acelerada e arrefecimento galopante.
Os amigos que connosco desenham o espírito de que fazemos parte são a paisagem que nos acolhe, nutre e regenera. Para estarmos perto basta a memória, a palavra ou o abraço.
Fiquemos juntos.